Agora também temos madrinha, e ela é a querida, sensível e generosa Educadora Ambiental Michèle Sato:
Michèle Sato
possui graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas (1982), mestrado em Filosofia (1992), doutorado em Ciências (1997) e pós-doutorado em Educação (2007). Atualmente é docente da Universidade Federal de Mato Grosso, docente credenciada na pós-graduação em ecologia da Universidade Federal de São Carlos, consultora - United Nations Educational Scientific And Cultural Organisation, - editora chefe da Revista Brasileira de Educação Ambiental, perita - Japan International Cooperation Agency, facilitadora das Redes de Educação Ambiental de: Mato Grosso (REMTEA), Brasil (REBEA) e internacional (REDELUSO). É consultora ad hoc do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Tem experiências nacionais e internacionais na área de Educação Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: sustentabilidade - arte - fenomenologia - mitologia - ecologismo
(Texto informado pelo autor)
Última atualização do currículo em 30/05/2008
Endereço para acessar este CV:
http://lattes.cnpq.br/9264997837722900
http://www.ufmt.br/gpea/index.htm
http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhepesq.jsp?pesq=9264997837722900
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Educação Ambiental: Pesquisa e Desafios
- MICHELE SATO & ISABEL CRISTINA DE MOURASabemos que a educação ambiental necessita de diálogos com várias áreas do conhecimento, inclusive com os saberes populares. É através da colaboração de diversos autores do Brasil, México, Canadá, Espanha e França que esta obra abarca a pesquisa como um dos caminhos às transformações necessárias para a inclusão social e a justiça ambiental. A ultrapassagem das fronteiras, revelada neste livro, é de grande importância a todos aqueles que aceitam a educação ambiental como contribuição ímpar à sustentabilidade planetária.Destaque da Edição: Esta obra reúne o que melhor se faz no Brasil, México, Canadá, Espanha e França em termos de pesquisa para viabilizar uma educação ambiental efetiva.
Palavras de Mimi
Inaguro aqui no blog a idéia de rápidas entrevistas com educadores(as) ambientais brasileiros e estrangeiros, trazendo idéias e pontos de vista sobre aqueles assuntos que gostamos de conversar nos corredores e durante o cafezinho dos encontros de Educação Ambiental…
Nossa estréia não poderia ser melhor - a entrevistada é a nossa super Michèle Sato, trazendo suas opiniões sobre três questões que apresentei a ela.
A entrevista foi feita por e-mail e a foto foi tirada meses antes, em Pirenópolis - GO, pelo nosso amigo educador ambiental português Joaquim.
Boa Leitura!
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A EA de hoje está melhor ou pior que a EA de 20 anos atrás? Por quê?
Michèle:
Não acredito que exista este parâmetro comparativo entre passado e presente. Em cada época, contexto e fôlego, cada qual faz sua história. Vestidos de farrapos ou na nudez de cada época, os protagonistas se aventuram com suas forças, projetando seus sonhos. Seria injusto desprezar o passado, como se pudéssemos lançar a pergunta se somos melhores do que nossos próprios pais. Certamente eles dirão que sim, e como mãe, também daria mesma resposta em relação aos meus filhos. Mas o movimento ecologista requer um cuidadoso reconhecimento de lutas pretéritas e das esperanças tecidas que ainda não finalizaram. Entretanto, como tudo na vida (ou na maioria de suas coisas), vinte anos representam uma temporalidade de maturação, avaliação e mudanças de táticas. Erramos muito no passado, e negligenciamos diversas temáticas. Contudo, graças a estes tropeços, a geração atual também aprendeu pelos erros.
Em outras palavras, há erros e acertos sempre, independente de qual tempo estamos inscritos. E a boniteza da alma é reavivar a memória, dinamizar-se, permitir que o congelamento não nos cegue. Os velhos precisam aprender com os jovens, mas a recíproca também é verdadeira. Nos sítios arqueológicos ou no futurismo cósmico, as incertezas existem. Descobrimos a cada instante, seja revisitando o passado, seja prevendo o futuro. Beleza e feiúra se conjugam de mãos dadas e não há um melhor que o outro. Na ciranda da vida, Paulo Freire diria que há somente ‘saberes diferentes’.
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O que está faltando para a EA brasileira ser “foda”?
Michèle:
Uma Frente de Oposição à Direção Atual (FODA)? Considerar a Educação Ambiental implica em inscrevê-la num círculo interligado ao momento político da sociedade. A Educação Ambiental não é uma ilha isolada do sistema e não pode ser vitoriosa isoladamente, do contrário, estaremos sendo cegos em promovê-la sem diálogos abertos com as sociedades sustentáveis que desejamos construir. Nunca a civilização testemunhou uma época tão fugaz, fugia e eminentemente pública. Os acontecimentos ocorrem de forma paulatina e não conseguimos mais nem ler os velhos jornais por inteiro. Inúmeras informações chegam em nossas caixas postais, nos assombrando ao grande desafio mundial: participação efetiva e não meramente representativa. Reuniões de redes ou ONG são esvaziadas, fóruns universitários não dão quorum e os impactos ambientais crescem em contramão às nossas especializações.
Estaremos silenciados pelo medo? Acredito que não. Estamos tateando, buscando construir qual é o melhor caminho para atuar, errar menos, ser mais tático. De fato, não sabemos como agir nesta era tão mutante. Estamos, velhos e jovens, em pleno processo de construção e não há varinha mágica que acene receitas, dê veredictos únicos ou métodos infalíveis.
Muita gente atribui o fracasso da educação ambiental à falta de informação. Infelizmente não penso desta maneira. Os veículos de comunicação de massa estão a todo vapor, escolas, informativos e o mundo informático estão cheios destas informações. O mais desesperador talvez seja encontrar sempre a meia dúzia de pessoas que sempre estão nos encontros ambientais, seja de que caráter tenha. E este panorama local se repete no cenário nacional e internacional. O círculo é vicioso, mas não sei como o tornaria em um círculo virtuoso, senão pelas minhas próprias tentativas de assumir as 3 ecologias do Gattari, coincidentes com a fenomenologia MPontyana:
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ECOLOGIA MENTAL (EU) - de saciar as sedes existenciais na esperança do devir, do reconhecer que os erros são normais e que a perfeição simplesmente não existe. Do acolher limites, tropeços e caos para que o infinito, os acertos e a harmonia sejam possíveis na dinâmica do ciclo da vida e morte.
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ECOLOGIA SOCIAL (OUTRO) - de respeitar o erudito, sabendo abrir fendas para que o popular seja acolhido. Lutar para que a inclusão social seja realmente ampla e democrática, sabendo respeitar as diferenças desde as empresas até os povos indígenas. Ampliar a bandeira da justiça ambiental, promover a multiculturalidade, tolerância, “com-vivência” e solidariedade.
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ECOLOGIA AMBIENTAL (MUNDO) - de assumir que a natureza jamais poderá ser vista como mero “recurso natural”, senão como uma teia tecida em mosaicos de vidas e não vidas. Da ultrapassagem do antropocentrismo, do acolher diálogos, tentando superar o dilema tardio de Platão em ser uno e simultaneamente múltiplo.
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Como você a EA daqui a 10 anos? Como ela estará?
Michèle:
Eu sempre a esperarei vê-la lindamente construída, ontem, hoje e amanhã. Qualquer que seja a temporalidade, que ela supere a tirania do calendário imposto por Chronos e roube o mito de Kairos, igualmente senhor do tempo, mas que falava em tempo pelo ritmo dos corações e não de relógios. Que a afetividade, amorosidade e generosidade também possam ser acolhidas nas lutas, onde as ciências podem (e devem) dialogar com as artes.
Que a infância, adolescência, maturação e velhice sejam conjugadas a um só tempo nas máscaras modeladas pelas nossas fantasias, entre a alegoria do carnaval de ruas e o choro do dia seguinte do pierrô abandonado. E que os retalhos sejam considerados no mosaico de cores, jamais desprezados. Que os espelhos reflitam a arqueologia pretérita para que as possibilidades futuras não sejam tão cicatrizadas, com sangue jorrando, injustiças atrozes, perversidades da vida…
Que o cheiro da chuva exale o perfume do sol, porque reconhecemos que o arco-íris é sempre incerto, deslizando em céus azuis sem início ou fim, apenas pairando em sonhos etéreos de palavras, linguagens ou silêncios inefáveis assoprados pela brisa.
Que a Educação Ambiental continue a zelar pela Terra, em sua maior magnitude da beleza inacabada, porque a luta sempre refletirá para que o futuro exista, exalado em aromas de sabores no pulsar das esperanças…
Fonte: Blog do Fábio Deboni
A nossa Entrevista
Com intuito de integrar nosso madrinha ao nosso site, ela mesma propôs, coisa que eu já confesso estar pensando (coisa de quem está já numa simbiose criativa
tremenda) em entrevistá-la.
Lógico que aceitei e já me propus a criar questões para que ela se disponibilizasse a nos responder.
Então, Mimi (carinhosa e respeitosamente assim chamando a minha querida amiga), lá vão as questões:
1) Sabemos que a cada dia precisamos pensar em educar desde cedo e como um todo e envolvendo o cotidiano da criança desde suas primeiras séries.
Nós os professores de diversas áreas e ciências da Natureza e afins juntamente com os professores também de formação filosófica, sociológica e outras
áreas do setor da educação em conjunto tentamos há décadas formar professores nesse sentido, mas a luta tem sido árdua e muitas vezes em vão.
O que você pensa, e qual seriam os pontos de equilíbrio entre essas ciências e como poderíamos tentar exercer esse trabalho de forma mais efetiva?
Primeiramente é preciso evidenciar que não existem receitas prontas, ainda que algumas experiências possam ser transmudadas e aplicadas, conforme as realidades nas quais elas serão desenvolvidas. O legado cartesiano fragmentou as ciências e a aliança entre elas ainda é um dilema que não conseguimos superar. Há vários aspectos que impedem o diálogo entre elas, desde formação dos profissionais, estrutura curricular dos cursos universitários, mercado de trabalho ou o próprio sistema social que impede o que você chama de “equilíbrio”, possível somente se percebido que junto com ele, inevitavelmente teremos o desequilíbrio.
O Nobel da Química, Ilya Prigogine, tem contribuições maravilhosas sobre a teoria do caos, que não ficou somente no campo da química, mas adentrou em diversas áreas do conhecimento, inclusive nas ciências humanas. Há várias experiências e vivências narradas na literatura, mas pessoalmente encontro na dimensão ambiental esta porta de entrada. Aliás, a porta não tem trincos, e nunca está trancada. Com passagens livres de idas e voltas, cada qual pode perceber seus significados e construir suas proposições no marco de suas competências.
Mas para responder sua pergunta, precisaria de vários Tratados, e ainda assim, oferecerão questionamentos, lacunas e fragilidades. Enfim, lamento dizer que esta é uma pergunta que não se cala, desde os primórdios das ciências e ainda não temos respostas prontas, exceto boas tentativas, entre erros e acertos.
2) Michèle, você desenvolve um trabalho artístico dentro da sua linha de pesquisa e trabalho, e acredito que dê importância a esses tipos de lingüagem também.
Enfim, o que acredita que possa mobilizar de verdade na educação e mobilização esse tipo de expressão? E como você cria e faz com seu grupo de pesquisas
dentro desse aspecto?
Nós temos vários artistas no nosso Grupo Pesquisador em Educação Ambiental (GPEA) das Universidades Federais de Mato Grosso (educação - UFMT) e de São Carlos (ecologia - UFSCar). Trabalhamos com várias expressões da arte, entre poesias, teatro, vídeos, musicalidade, pinturas ou zonas de silêncio. Construímos “confetos”, uma aprendizagem híbrida entre CONceitos e aFETOS, na amorosidade e na generosa luta de minimizar as dores do mundo por meio do prazer da arte.
Um pequeno exemplo que talvez possa ser oferecido é um projeto que temos no quilombo Mata Cavalo, por meio do combate ao racismo ambiental. Na comunidade, as mulheres são as líderes e a luta na legalização das terras e no enfrentamento cotidiano da dramática violência socioambiental. Há várias linhas de pesquisas sendo realizadas no marco do projeto, mas aqui especificamente, uma vivência pedagógica que talvez possa ilustrar como trabalhamos com a arte. Uma artista plástica desenhou as mulheres de Mata Cavalo. Eu escrevi poesias na inspiração das imagens, um músico compões canções, ensaiamos uma peça de teatro e fizemos vídeo.
Para a comunidade, solicitamos que eles expressassem suas percepções sobre o ambiente, explorando diversas linguagens. Entre os desenhos, textos, teatro ou músicas, conseguimos perceber que a casa é um ícone muito forte que é percebido como ambiente. A casa da reza, das festas, dos encontros, das visitas ou das reuniões das lutas cotidianas. Enfim, temos vários textos que podem dar pistas da maneira como dialogamos entre as artes e as ciências, e estamos convictos de que estudar é difícil, mas pode ser prazeroso. Para além do cérebro, o coração também ajuda a cuidar do mundo.
3) Muito se fala em EA (Educação Ambiental), mas pouco se faz no tocante de realmente se obter ações educativas transversais, multidisciplinares e aplicáveis
realmente ao cotidiano escolar e práxis do professor dentro das grades curriculares dos Níveis Fundamental e Médio na Escola no Brasil. Como você pensa e acha
que seria possível, já que é urgente a necessidade desse tipo de reeducação, inserir práticas de desenvolvimento de EA nas Escolas, sem ser em palestras, feiras
de ciências, questões de provas de vestibular, ou seja, em isolados eventos?
Acredito que seja um erro considerar a Educação Ambiental como ilha isolada de um continente em crise. Assim como a educação em química, a educação ambiental ainda está à mercê das políticas gerais da sociedade e se ela está em crise, a Educação Ambiental também estará enfrentando seus dilemas. Por isso, além dos diálogos entre as ciências, é preciso aliar o diálogo entre o currículo da vida e o currículo da escola. Em outras palavras, a escola deve estar conectada com as dimensões da sociedade, não meramente esperando que governos ditem suas políticas, mas fundamentalmente, propor também. Haverá uma dinâmica entre aceitar propostas e propô-las; entre testemunhar mudanças e protagonizá-las; entre ir em eventos pontuais e construir projetos mais sustentáveis; enfim, uma mistura de várias coisas, sonhos e esperanças.
4) Qual seria a ação mais emergencial e efetiva a ser elaborada e feita para o nosso país, o que acha que é mais gritante e que precisamos alertar aos que estão
em desenvolvimento?
Ironicamente, o combate à própria percepção do que seja desenvolvimento. A prefixo “des” implica negação [DESemprego - DESilusão - DESencanto etc.]. E na minha percepção, portanto, desenvolvimento significa negar o envolvimento. Acredito que nossa árdua tarefa seja promover uma nova forma organizacional societária, que promova o envolvimento das pessoas no cuidado com o outro e destas relações, com o mundo.
Infelizmente o mundo se orientou à promoção do desenvolvimento, e este considerado como econômico. Discute-se a questão ambiental, na pauta periférica que acarreta inúmeras perdas ambientais e que estão completamente associadas aos prejuízos sociais. Um sonho? Quiçá um Brasil belo e exuberantemente ambientalista, capaz de ter o desenvolvimento como pauta, mas que não seja seu fim. Não sei se iremos vencer, mas acredito que o mais importante é mostrar de que lado estamos. Não escolhi a Educação Ambiental para ser vitoriosa, mas para lutar pelas esperanças. “Semeio sóis e estrelas - não me importa a colheita”.
Gostaria de agradecer a sua disposição em nos responder, ao atender nosso convite, e ser tão próxima no tocante de sensibiliza-se com nosso projeto e causa.
Espero poder disseminar essa grande necessidade que temos de educar os jovens e crianças que necessitam e podem estar em contato por internet conosco.
Espero poder ajudar na difusão da ciência aos que não têm como estar na escola e também não têm condições.
Espero dentro em breve estar produzindo trabalhos que se afinem mais com a perspectiva do novo olhar da Química afinada com o Meio Ambiente.
Para isso, estamos abrindo as portas para novas visões e criações, por isso, seja bem vinda, Mimi!
Agradeço a oportunidade, Cris, e lamento por respostas lacunosas que podem deixar a desejar, porém as perguntas são de enorme envergadura e não creio que haja respostas prontas a serem oferecidas. As diversas educações ainda enfrentam sérios desafios e temos muito que construir e aprender. Mas obviamente, a esperança existe. Ainda que morosa, por vezes opaca e sem sinais… mas certamente pela vontade de construir um planeta mais bonito para todos e não apenas à minoria. Se a Terra não for de todos, não poderá ser de ninguém.
Um abraço com minhas fraternuras
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