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Dados (somente um exemplo)

Dados de níveis de analfabetismo na fase ADULTA.

A origem de tudo (o problema, a partir da idéia da Meire)

O Brasil foi reprovado em ciências, matemática e leitura.

Recentemente o Brasil foi reprovado em matemática, leitura e ciências, ficando em 53º lugar, dentre os 55 países que foram submetidos à pesquisa, que foi feita pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A pergunta que fica é: Qual será o futuro de um país onde a educação está relegada ao segundo, terceiro plano?

O Brasil foi reprovado em ciências, matemática e leitura.

Recentemente o Brasil foi reprovado em matemática, leitura e ciências, ficando em 53º lugar, dentre os 55 países que foram submetidos à pesquisa, que foi feita pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A pergunta que fica é: Qual será o futuro de um país onde a educação está relegada ao segundo, terceiro plano?

Tempos atrás o Brasil se vangloriava de ter diminuído o analfabetismo, porém o que estes dados vêm constatar é que, na verdade, mesmo tendo quase 100% de crianças nas escolas, o analfabetismo está em proporção alarmante, e pior; analfabetismo de alunos dentro das escolas. Enfim, o Brasil finge que dá educação, os professores fingem que ensinam e o aluno finge que aprende.

O resultado obtido pela OCDE, não é algo que surpreende aqueles que vêm acompanhando de perto a educação, pois há anos é observado que o ensino vai de mal a pior.

O professor, durante anos, vem reclamando quanto a seus salários, a falta de sérias políticas educacionais. Ganham mal, não são valorizados, não são respeitados pelos alunos e nem pelos pais dos mesmos, trabalham sobre intensa pressão e não podem reprovar. Perderam toda autoridade, que deveriam ter, para ensinar.

Foi criada uma política que, o importante é ter diploma, sem importar com o saber. O mais triste é que isto vem ocorrendo no ensino básico, fundamental, isto é, no inicio da aprendizagem, da formação educacional e intelectual da criança e do adolescente.

Um país, onde o ensino é tratado sem as mínimas responsabilidades, certamente está comprometendo todo seu futuro, pois o desenvolvimento, crescimento e mesmo a democracia, depende da boa educação. A construção de um país somente pode ser atingida através da educação.

Um país onde a leitura fica em terceiro plano, evidentemente está se comprometendo de forma nociva a cultura de seu povo, da mesma forma que compromete no caso da ciência e da matemática.

Sem duvida, é fundamental um investimento maciço na formação dos professores, dando a eles estimulo por meio de cursos de capacitação e valorização, autoridade para que possa exigir do aluno conhecimento e, sobretudo, através de um salário que faça jus a sua responsabilidade; a é de formar o homem do amanhã.

Evidentemente a pedagogia educacional mudou, novas diretrizes de ensino surgiram, mas é preciso ressaltar que a educação deve levar ao aluno o conhecimento e a formação intelectual, isto passa, principalmente, pela leitura, ciência e matemática.

O mais preocupante é que foram apenas estas três disciplinas que foram avaliadas, e o Brasil levou pau. Que este resultado possa ser um sinal positivo, que possa ser um alerta para que o país, tanto a nível federal, estadual e municipal, que todos dêem prioridade para a educação, reformulando conceitos e, principalmente, valorizando os professores para que, posteriormente, possa cobrá-los.

E que os pais também assumam a responsabilidade de ensinar seus filhos porque uma boa educação começa dentro de nossas casas e somente com união entre governo, escola e pais conseguiremos mudar esse quadro desastroso.

Ataíde Lemos

Email:: ataide.lemos@gmail.com
URL:: http://www.ataide.recantodasletras.com.br

http://brazil.indymedia.org/en/blue/2007/12/406066.shtml

Um artigo interessante sobre o assunto

Quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Enquanto a discussão pública de nossa educação não envolver toda sociedade vai continuar falhando

No artigo da revista VEJA, abordo uma questão que me parece crucial para a falência do nosso sistema de ensino: o seu abandono pela sociedade e a cooptação pelas corporações (sindicatos, mormente) dos profissionais do ensino. Chegamos ao ponto em que, a se julgar pela discussão pública da educação, esta pertence aos professores, e não à sociedade, e deve satisfazer os anseios dos profissionais que nela trabalham, ao invés das vontades dos alunos e suas famílias. A idéia - errônea - de que aquilo que é bom para os professores é bom para os alunos foi incorporada de tal maneira que parece herético dizer o óbvio: por mais bem-intencionado que seja qualquer professor e funcionário, há coisas que são boas para eles e ruins (ou insignificantes) para os alunos, e vice-versa. Fazer dever de casa, por exemplo: a literatura empírica é praticamente unânime ao apontar o efeito benéfico de o aluno trabalhar em casa, mas prescrever e corrigir dever de casa é algo que sobrecarrega o professor, que já se sente acuado pela falta de tempo. Esse tipo de situação conflitiva é absolutamente normal. O anormal é a barreira que foi criada para escondê-la: há uma associação tão forte no imaginário popular entre as necessidades dos professores e aquelas do sistema de ensino que apontar os professores e alunos como entes separados, com interesses freqüentemente diversos e ocasionalmente antagônicos, virou ofensa contra professores e funcionários.

“Por mais bem-intencionado que seja qualquer professor e funcionário, há coisas que são boas para eles e ruins (ou insignificantes) para os alunos, e vice-versa”

A corporação se encastelou de tal maneira como “dona” da educação que acabou se arvorando como árbitra das políticas do setor, ao invés de executora. Especialmente na educação pública - ainda que toda a educação brasileira seja no mínimo semipública, por conta dos descontos de imposto de renda, mas isso é tema para outro artigo - isso é preocupante. Se você dissesse que um fiscal da Anvisa pode decidir quais medicamentos podem ser aprovados para consumo e quais aqueles que ele acha que devem ser reprovados, soaria absurdo. Se você sugerisse que um diretor de Detran pode decidir com que idade uma pessoa pode começar a dirigir, ou que pudesse decidir quem deve receber a habilitação para dirigir baseado no que ele acha das habilidades da pessoa, soaria ridículo. Mas se você dissesse que, assim como estes profissionais, os professores de escolas públicos são funcionários públicos, empregados com dinheiro público para cumprir as funções prescritas por seus líderes democraticamente eleitos, também soaria absurdo.

“Como pode comparar um professor a um funcionário da vigilância sanitária ou a um burocrata da área de trânsito?!”, já começo a ouvir o rufar da indignação. A comparação não diz respeito à importância social de cada um ou suas qualificações acadêmicas: falamos apenas acerca da necessária subordinação de um funcionário público aos desígnios dos poderes constituídos. Na área educacional, parece ser aceitável que um professor decida quem vai e quem não vai aprender e que devote esforços proporcionais a essa crença, que decida quem vai ou não repetir de ano usando critérios subjetivos como esforço etc., que falte ao serviço com freqüência enorme e se sinta eximido dessas ausências por conta do estresse da profissão.

“A responsável pela orientação pedagógica da secretaria municipal de Educação estava furiosa. O governo do Rio Grande do Sul havia ‘inventado’ um programa para testar a eficácia de três métodos de alfabetização.”

Ano passado encontrei um exemplo bastante emblemático de toda essa confusão. Fui dar uma palestra em um congresso de professores em cidade da grande Porto Alegre, cujo nome mantenho em sigilo por motivos que serão óbvios. Ao chegar no local do evento, conversei com a responsável pela orientação pedagógica da secretaria municipal de Educação que, descrevendo a situação da cidade, estava furiosa. É que o governo estadual do Rio Grande do Sul havia “inventado” um programa para testar a eficácia de três métodos de alfabetização. Algumas cidades do estado foram escolhidas para participar do estudo, com a obrigação de adotar um dos três métodos, que lhe seria indicado de forma randômica, aleatória: algumas cidades implementariam um método de alfabetização de viés construtivista, coordenado pelo Geempa (Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação) da Profª Esther Grossi; outras, pelo método fônico, do Instituo Alfa e Beto, capitaneado por João Batista Oliveira, e o terceiro grupo receberia a metodologia do Instituto Ayrton Senna, dirigido por Viviane Senna. No começo e no final do ano, os alunos seriam testados por provas desenhadas pela Fundação Cesgranrio, e saber-se-ia qual dos métodos era o mais eficaz e qual teria a melhor relação custo-benefício.

É uma iniciativa que me parece absolutamente exemplar. Foca naquele que é a nossa carência mais grave, até por ser a mais basilar, que é a alfabetização. Tem a coragem de implementar um estudo randômico, como manda o figurino da pesquisa, algo que políticos têm natural resistência em implementar. Chamou para participar três instituições de renome e competência reconhecidos, comandadas por lideranças respeitadas e idôneas. Trouxe para fazer o monitoramento aquela que é provavelmente a melhor instituição da área de avaliação educacional. E, de quebra, além de auxiliar não só o estado do Rio Grande do Sul, tinha a chance de fornecer informações que devem servir de valia para todo o país, mergulhado no mesmo problema (com as tinturas regionais de sempre).

Longe de estar orgulhosa de participar desse projeto pioneiro, porém, a responsável pedagógica do município estava extremamente descontente por estar recebendo “goela abaixo” um método de alfabetização “totalmente ultrapassado”: o fônico. Perguntei-a por que este método seria ultrapassado, e ela me disse que era coisa da década de 60, que o conhecimento sobre a área já havia avançado muito desde então. Perguntei então se o método também estava ultrapassado em termos de resultados; se havia teorias que comprovadamente apresentavam melhores resultados em sala de aula. A senhora me olhou como se eu falasse grego, não sei se apenas espantada ou talvez lamentando a total ignorância e ingenuidade de um economista. “Em termos teóricos, é claro!”. É claro. Pouco importa o que funciona ou não para o aluno: o importante é que aquilo que está sendo implementado em sala de aula esteja coerente com o que de mais avançado há no pensamento pedagógico. Ninguém faz isso por maldade ou desprezo com os alunos: a própria teoria pedagógica mais recente se encarregou de inculcar em seus leitores a idéia de que a medição de resultados é uma perversidade ideológica, um reducionismo, parte do programa daqueles que querem destruir a construção de uma educação crítica e cidadã etc. Nada mais natural do que a rejeição, por parte dos seus leitores, das ferramentas que poderiam invalidar (ou pelo menos questionar) o seu edifício teórico.

Esse episódio seria apenas um “causo”, não fossem as suas implicações práticas. Perguntei à minha interlocutora o que os professores achavam daquele programa governamental em geral e do método de alfabetização que lhes havia tocado. Tinham a mesma percepção negativa. E esses professores conseguem implementar em sala de aula esse método, no qual não acreditam? Acho que a pedagoga respondeu algo como “fazem o melhor possível”, mas é certo que levavam para a sala de aula as mesmas restrições que expressavam abertamente fora dela.

“A educação de um país é tarefa importante demais para ficar a cargo apenas de educadores.”

Os testes de alfabetização foram aplicados no final de dezembro, e seus resultados só estarão disponíveis em fevereiro, de forma que os achados são incertos. O certo é que, naquela cidade, como em tantas outras, as preferências pessoais de professores e pedagogos empregados pelo sistema público faziam com que milhares de crianças não tivessem pleno acesso a um método de ensino que talvez fizesse uma diferença crucial em suas vidas.

Tenho certeza de que se essas crianças e seus pais fossem ouvidos, gostariam que seus filhos tivessem acesso a todos os métodos possíveis, ministrado por professores comprometidos ou, no mínimo, neutros. Infelizmente, esses pais e professores não são ouvidos, e enquanto a nossa educação não for verdadeiramente democrática - do povo e para o povo - vai continuar falhando. A educação de um país é tarefa importante demais para ficar a cargo apenas de educadores.

P.S.: A maioria da pesquisa internacional que eu conheço sobre a temática da alfabetização sugere que, levando-se em consideração as características do professor, a metodologia utilizada (se fônica ou construtivista) não tem impacto significativo sobre o aprendizado dos alunos. Imagino que o experimento gaúcho apresente os mesmos resultados. Vejamos o que dirão os dados.

dubitandum
Gustavo Ioschpe

Economista, especialista em educação
E-mail: gustavo.ioschpe@gmail.com
“de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

Discussão: Professores x Economista

Quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Gustavo Ioschpe responde aos leitores

Em seu último artigo neste espaço, Educação sem povo (leia aqui), Gustavo Ioschpe defende que a sociedade precisa ser envolvida na discussão pública de nossa educação. Mais de 50 mensagens comentaram o artigo. Ioschpe responde alguns desses leitores
Não existe um método único de alfabetização, cada ser humano é ímpar, por isto é legal o professor ter esta consciência de que método é método, o que é bom para um não é para o outro, ele(professor) tem que estar aberto a usar novos e antigos métodos, lembrando que o mais importante é o aluno. Então não adianta verificar qual o melhor método que deverá ser aplicado, mas preparar o professor para aplicar o melhor de acordo com o perfil de seus alunos. Adorei seu artigo.
Agnes

Realmente, é fundamental a flexibilidade de se adaptar métodos diferentes de acordo com a realidade efetiva da sala de aula. Mas também é importante saber se há alguma metodologia comprovadamente superior, testada empiricamente, para que essa sirva como ponto de partida. Me parece melhor partir de um ponto geralmente superior e mudar em caso de insucesso do que reinventar a roda a cada ano ou a cada aluno. O professor precisa ter essa flexibilidade na implementação, mas os sistemas de ensino precisam buscar uma metodologia que seja recomendada para todos.

Caro Iochspe, acho que você se equivoca ao falar de uma possível neutralidade de professor. Sou professor de português e inglês, no entanto não leciono gramática como muitos compêndios prescrevem ou desejam, e sei muito bem porque faço isso, minha concepção de língua e aprendizagem não permitiriam, nem por isso meus alunos deixam de aprender esse conteúdo no momento adequado. Portanto, como seria possível pedir para um professor ensinar algo em que ele não acredita? Por exemplo, poderíamos pedir a você que falasse e escrevesse a favor do ensino público e gratuito? Acho que não? Você é desonesto por isso? Não? Em relação à alfabetização, o conceito de letramento mostra que não há grande diferença, ou sequer significativa diferença, em relação ao modo como se aprendeu a ler e escrever, uma vez que o aprendiz de uma forma ou outra compreenderá o sistema e passará a utilizá-lo. Então pergunto por que o professor tem que fazer aquilo que o governo quer, sem consultar os professores. Nesse caso acho melhor convidá-los para participar voluntariamente da pesquisa. Por que não se ouve o professor em relação ao como e por que algo deve ser ensinado? Se fosse professor de história não diria que no Brasil não há democracia racial por causa da miscigenação do povo, por exemplo, a revista em que você trabalha diz que há democracia racial, e aí? Como fica?
Rinaldo Vitor da Costa

A questão da neutralidade é complexa e fascinante, e mereceria um longo artigo. Para resumir, a minha visão é aquela que Weber examina em Wissenschaft als Beruf (A Ciência Como Vocação). Talvez a neutralidade completa seja impossível, mas ela precisa assim mesmo ser buscada – ainda mais em escolas públicas. Creio que há uma confusão de papéis e autoridades na educação brasileira. Em uma escola pública, o professor tem a autonomia para implementar os métodos que acha mais eficazes, mas não a linha, o objetivo do ensino: este é determinado pela sociedade, através de seus governantes, e cabe ao professor segui-la. Isso implica o mesmo exercício de todas as outras profissões: avaliar se a linha do seu empregador é compatível com os padrões morais e éticos do empregado. Em caso negativo, verificar se é possível adaptar-se aos padrões estabelecidos ou mudá-los. Caso ambos sejam impossíveis, cabe a renúncia/demissão. O que não se pode fazer é se usar do espaço privilegiado em sala de aula, em que a sociedade dá ao professor a tarefa de ensinar suas crianças, para que o professor faça suas pregações ideológicas particulares. Isso é um abuso da confiança depositada no professor pela sociedade e uma violação da ética entre professor e aluno, que prevê a suspensão da descrença deste último em relação ao que emana do primeiro. Quanto mais jovem for essa criança e menor for a sua capacidade de discernimento e quanto mais a posição pessoal do professor impactar os resultados objetivos do processo educacional, como avaliações de desempenho do alunado e decisões de promoções e retenções, tanto mais séria será a infração do professor.

O professor não é soberano na decisão dos objetivos educacionais a serem alcançados – a soberania vem da sociedade. Para trabalhar em estabelecimento pago por essa sociedade, ele precisa respeitar suas diretrizes.

A analogia com o meu trabalho não procede. Sou pago para pensar, e pensar com liberdade. Esse é o “contrato” que eu tenho com a VEJA e com todos os outros veículos de imprensa ou editoras com as quais trabalho e trabalhei. Se me fosse imposto um ponto de vista ou vetada uma posição em que acredito, certamente procuraria outro empregador. O professor da rede pública não é pago para ser intelectual nem para fazer doutrinamento ideológico dos alunos. Sua função é ensinar sua matéria. Repito: se esse “contrato” com a sociedade não o agrada, que procure escola com linha diferente ou mude de profissão. O que não pode é querer impor a sua visão pessoal sobre um processo que é de responsabilidade do Estado.

Senhor Gustavo, você está generalizando os profissionais de educação, concordo que a educação não deve ficar apenas nas mãos dos educadores, deve passar por uma discussão com pais, representantes do poder público e da sociedade civil de forma geral. Sei que os professores, sobretudo os da rede pública, são verdadeiros heróis, lutando contra um cotidiano violento das salas de aula, principalmente nas grandes periferias, onde o tráfico de drogas dá as cartas, as famílias estão destroçadas pela miséria imposta pela desigualdade e a presença do poder público é nula. Nem falo dos baixos salários, que correspondem a salários de jovens em início de carreira e da exaustiva carga horária para viver com o mínimo de dignidade. Quase todos sabem das estatísticas da educação, porém a sua realidade ainda está distante para uma parcela da população. A educação vai mal pelo mesmo motivo que vai mal a saúde, a segurança, a habitação, o transporte público, o emprego, o salário mínimo, o descaso com a desigualdade, o abismo que se formou entre ricos e pobres - o preço disso já estamos pagando. Apesar da fragilidade dos sindicatos, ainda conseguem evitar o isolamento do professor, que cotidianamente é castigado pelas políticas públicas, é hostilizado pela mídia, é vilão para os pais e refém de uma situação caótica que, com certeza, ele é tão vítima quanto você.
José Silva

Veja que raciocínio torto: a causa da má educação seria a desigualdade de renda. Para solucionar a educação, portanto, seria necessário solucionar a questão da desigualdade de renda. Os estudos mostram, porém, que a causa principal da desigualdade de renda é a desigualdade de educação. Estaríamos em um ciclo fechado, insolúvel. A relação é inversa: é a má educação que causa o abandono da escola que gera a desigualdade educacional que contribui fortemente para a desigualdade de renda. Há vários países com altos graus de desigualdade social e de grande pobreza que fizeram verdadeiros milagres na educação. O professor precisa entender que a nossa situação social é dada, não será mudada imediatamente. O que pode, sim, ser mudado, são a competência e o esforço que cada professor dedica a cada dia de aula, a cada aluno. E que esse esforço e essa competência são, na verdade, a melhor ferramenta para a verdadeira mudança social – muito melhor do que qualquer discurso ideológico a favor da revolução dos oprimidos etc. – porque dá ao sujeito a capacidade de mudar a sua vida. Essa educação ideológica que deixa o aluno analfabeto e despreparado para a vida é a mais reacionária que existe – garante que o pobre permaneça pobre.

Por favor, não faça esse tipo de pedido este colunista que não entende nada de educação.Você ainda não percebeu que ele é um disseminador das políticas burguesas, políticas estas que em nenhum momento favorecem as “massas”.
Carlos

Realmente, clamar por uma educação de qualidade para todos, exigir do sistema educacional que se adeque às necessidades dos nossos pais e alunos ao invés de culpa-los pelo fracasso é realmente o ápice das políticas burguesas, o que quer que isso signifique. Não favorece as massas, nem os biscoitos.

Muito de fala de professores e de sua incapacidade de melhorar o processo ensino/aprendizagem. Não tenho lido nada a respeito da responsabilidade de diretores que vivem no cargo sem nenhum compromisso. São indicações políticas.
Garibalde Ferreira de Farias

É verdade, é um problema sério. Será tratado em artigo dos próximos meses, aguarde.

Achei interessante o “causo” apresentado pelo senhor sobre os métodos de alfabetização. A meu ver tanto a sua postura quanto a da pedagoga estão erradas. Passei por experiência semelhante quando o governo do estado do Rio de Janeiro adotou a teoria construtivista como obrigatória nas escolas do estado. A teoria foi adotada por um grupo da Secretaria de Educação e imposta aos professores (que em sua maioria a desconhecia) e não foram preparados para aplicá-la. Poucos cursos de atualização sobre essa teoria foram implementados nos anos seguintes para um número pequeno de professores. Os resultados foram pífios. Os professores que utilizavam o método fônico com bons resultados ficaram perdidos e sentiam que estavam enganando os alunos. Se a SEE tivesse promovido reuniões e cursos antes de criar a obrigatoriedade de adoção da teoria construtivista, o resultado poderia ter sido outro, pois, pude acompanhar bons resultados quando os professores aproveitaram conhecimentos adquiridos com a teoria construtivista e a prática do método fônico. O que falta à educação é que professores, teóricos, pesquisadores (inclusive economistas) e famílias troquem informações e procurem caminhos que melhorem as práticas dentro da sala de aula.
Lourdes

É verdade. Infelizmente há uma enorme resistência dos profissionais da educação por dialogar com qualquer pessoa que não seja professor. Além de uma infantilidade, é um erro estratégico. A sociedade civil brasileira está começando a acordar e perceber o tremendo prejuízo que significa, para o país, a falência da nossa educação. O tempo em que a escola podia falhar e o professor podia fazer o que bem entendesse estão com os dias contados. Se os professores participarem do diálogo social, entendendo-se como agentes de um processo social e não como “donos” da educação, terão muito a contribuir e todos ganharemos. Se rechaçarem o diálogo com todos aqueles que compõem o vasto leque das pessoas que se preocupam e pesquisam sobre o tema, acabarão ficando de fora do processo de reforma que a educação brasileira obrigatoriamente terá de passar e acabarão recebendo soluções prontas que terão de ser implementadas à sua revelia e para o seu desgosto.

Respeito sua opinião, mas gostaria de comentar uma parte dela. Quando você diz na revista que o professor deve acatar as políticas públicas previstas pelos seus governantes democraticamente eleitos penso que: 1) Mesmo um governo eleito pode sim ser questionado em suas atitudes, coisa que a revista VEJA faz, corretamente, com o governo Lula; 2) Num país como o nosso, nem sempre as pessoas que têm um cargo público de chefia tem competência para isso. Quanto à questão salarial, mesmo que isso não melhore a qualidade dos professores atuais (eu inclusive), talvez atraia para a carreira pessoas mais inteligentes como a doutora que escreveu para a seção de cartas da VEJA. No mais, acho de suma importância a revista abrir espaço para uma discussão saudável e democrática. Obrigado pela atenção.
Lawrence Moraes

Concordo. Acredito que deve haver um profundo diálogo no processo de reforma da educação brasileira. Mas no momento em que uma política é decidida e pactuada pela sociedade, o professor não tem a liberdade de decidir se a segue ou não. Terá sempre, é claro, a liberdade de qualquer cidadão de questionar democraticamente qualquer política. Mas não de usurpar a missão que lhe foi dada para impor a sua própria agenda aos alunos.

Sobre a questão salarial, há dois problemas. O primeiro é que políticas como essa já foram tentadas e não resolveram o problema. Em alguns estados do Nordeste, por exemplo, houve aumentos salariais de 60% ou mais, e ainda assim a qualidade da educação continuou sofrendo. Talvez essa política surtisse efeito se o salário saltasse de, digamos, R$ 800 para R$ 5.000, mas esse aumento é absolutamente impossível dada a realidade orçamentária não só do Brasil, como de qualquer país. Precisamos trabalhar com hipóteses factíveis, ou ficaremos sempre empacados.

Concordo com as posições do ilustre colunista. Trabalhei na rede pública de ensino de Belo Horizonte por 15 anos, e por fim desisti. Cansei de ver colegas entrando em sala de aula para ler jornal, enquanto os alunos se divertiam atirando papéis uns nos outros. Cansei de ver o sinal bater e a sala dos professores continuar cheia. Cansei de ver colegas faltando 20 dias no mês, sem que a prefeitura pudesse (ou quisesse) fazer alguma coisa, o que acarretava conseqüências para o ânimo dos alunos com a escola e, por conseguinte, com a matéria daqueles professores que levavam o ensino a sério. Cansei de ver a pressa com que a maioria dos professores adotaram o projeto municipal denominado “Escola plural”, que se comprometeu a, em síntese, aprovar os alunos sem conhecimento (”fim do trauma da reprovação”) com o único fito de criar estatísticas falsas de excelência da rede de ensino municipal. Cansei. Fiz outro vestibular e mudei de profissão. Que pena!!! Cinco anos depois, meus colegas sérios ainda estão lá, tentando vencer, primeiramente, a inércia e leniência dos professores que fingem que dão aula, num sistema falido de ensino que, para piorar, adotou o modelo de aprovação automática.
Rosalina Miranda

É muito bom ouvir relatos como esse, furando o bloqueio de silêncio da corporação dos professores. Só lamento que haja tão poucos casos de pessoas dispostas a contar suas experiências de maneira franca, e ainda mais que essas pessoas o façam apenas depois de abandonar o magistério. Recebo várias mensagens de professores indignados como você, contando as barbaridades que presenciam, mas que pedem anonimato. Têm receio do linchamento moral que receberiam se viessem a público com as suas críticas. O receio procede. Em alguns artigos, recebo duzentos ou trezentos e-mails de reclamações, críticas e acusações, alguns destes com xingamentos desagradáveis e ameaças de agressão física. Faz parte. O silêncio apenas perpetuará o atual estado de coisas. Espero que mais professores, aqueles preocupados com o aprendizado de seus alunos, consigam romper essa barreira do silêncio e da intimidação e ajudem a expor as maçãs podres do setor.

Por que será que existem professores tão ruins assim? O que você acha? Eu sei que existem, conheço alguns. Você parou pra pensar que a resposta pode estar dentro do sistema educacional (onde o professor é o lado mais fraco da corda) ou dentro da própria sociedade como um todo? Uma sociedade onde os valores mais singelos (como respeito, solidariedade) são deixados de lado e que refletem com toda certeza dentro de uma sala de aula. Acho uma atitude muito simplista atacar toda uma categoria, generalizando. É o mesmo que dizer que todos os políticos não prestam, ou que são corruptos.
Aparecido Arcanjo Pereira Rasteiro

Esse escapismo e a culpabilização sempre dos outros são uma grande derrota para os próprios professores e para a educação brasileira. Jamais disse que todos os professores são assim ou assado, mas quando falamos de sistemas educacionais precisamos falar da situação geral, não da exceção. É mais fácil ser professor na Finlândia do que na Rocinha? Sem a menor dúvida. A pobreza e o subdesenvolvimento conspiram contra a educação de qualidade? Sem a menor dúvida. Mas esse cenário não desculpa a incompetência do profissional: pelo contrário, faz com que a competência individual seja ainda mais importante. A educação é a única ponte que pode levar o aluno pobre a ter uma vida digna, a quebrar o ciclo secular da pobreza. Se os professores lavarem as mãos e esperarem a mudança social, estamos fritos. A educação tem de sempre ser melhor do que a sociedade se quisermos avançar. Nem igual, nem pior: melhor. Se não formarmos gerações futuras melhores do que as atuais, estamos condenados.

Esse escapismo e a culpabilização sempre dos outros são uma grande derrota para os próprios professores e para a educação brasileira. Jamais disse que todos os professores são assim ou assado, mas quando falamos de sistemas educacionais precisamos falar da situação geral, não da exceção. É mais fácil ser professor na Finlândia do que na Rocinha? Sem a menor dúvida. A pobreza e o subdesenvolvimento conspiram contra a educação de qualidade? Sem a menor dúvida. Mas esse cenário não desculpa a incompetência do profissional: pelo contrário, faz com que a competência individual seja ainda mais importante. A educação é a única ponte que pode levar o aluno pobre a ter uma vida digna, a quebrar o ciclo secular da pobreza. Se os professores lavarem as mãos e esperarem a mudança social, estamos fritos. A educação tem de sempre ser melhor do que a sociedade se quisermos avançar. Nem igual, nem pior: melhor. Se não formarmos gerações futuras melhores do que as atuais, estamos condenados.

http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/respostas_310108.shtml

Quem é o Economista?

Sexta-feira, 29 de agosto de 2007

Quem sou, de onde vim e por que estou aqui

Começamos hoje esse diálogo que, espero, seja longo e frutífero. Nos encontraremos nesse espaço quinzenalmente. Talvez valha a pena uma breve apresentação. Meu assunto primordial aqui será educação. Abordo-o da perspectiva de um economista da educação. “Economista da educação?”, perguntarão alguns. Que é isso? O que economia tem a ver com educação?

“A economia lê o mundo através de algumas hipóteses sobre o comportamento humano baseado na defesa de seus interesses materiais.”

Na primeira aula de economia que eu fiz na vida, um grande professor disse: “Vocês estão aqui para tirar uma nota boa, eu estou aqui para fazer vocês pensarem como economistas.” Não entendi direito o que ele tentou dizer com a segunda parte da frase. Imaginei, como certamente muitos de vocês imaginarão agora, que a economia é uma área do conhecimento humano que lida com dinheiro, taxas de juro, inflação, etc. Não é. Economia é uma forma de ler o mundo. Assim como a História interpreta o presente pelo que ocorreu no passado. Assim como a sociologia explica o mundo pelo comportamento de coletividades. Assim como a psicologia trata de desvendar o mundo analisando as motivações inconscientes que determinam o comportamento de indivíduos. A economia lê o mundo através de algumas ferramentas heurísticas, hipóteses sobre o comportamento humano baseado na defesa de seus interesses materiais.

Algumas pessoas vêem economistas falando sobre o amor, a família, o aborto, a cultura e se ressentem da impertinência desse avanço sobre outras áreas do saber. Não entendem justamente que as hipóteses que norteiam a criação do homo economicus e a caixa de ferramentas estatísticas que são normalmente usadas para decifrar taxas de juro ou de retorno podem ser igualmente aplicadas a qualquer situação. Assim como se pode falar de uma história da educação, de uma sociologia da educação e de uma psicologia da educação, também se pode falar da economia da educação. Se as análises resultantes desse método estarão certas ou erradas são, obviamente, outros quinhentos.

“Assim como se pode falar de uma história da educação, de uma psicologia da educação, também se pode falar da economia da educação.”

Mas o que faz a economia da educação? Basicamente, duas coisas. Primeiro, analisa o impacto da educação sobre fatores econômicos (renda, crescimento econômico, desigualdade social etc.) e vice-versa. E, segundo, utiliza-se do ferramental do economista – as análises estatísticas – para avaliar a própria educação, tratando de determinar quais variáveis são, por exemplo, relevantes (ou “estatisticamente significativas”, no jargão) para determinado resultado.

Um sociólogo pode descrever grandes teorias sobre, por exemplo, a relação entre educação e criminalidade. Um economista pegará uma variedade de dados – os mais óbvios sendo taxas de escolaridade e índices de homicídio, por exemplo – juntará a outras inúmeras variáveis que podem estar influenciando a relação das duas variáveis. Por exemplo, o nível de renda da região estudada, o índice de desemprego, o número de residências em que os pais são divorciados, a taxa de policiamento, a eficiência do judiciário – e jogará todas elas em programas que fazem análises estatísticas e dirá se há ou não uma relação entre educação e crime, quanto um explica o outro, quais são as outras variáveis relevantes, etc.

É disso tudo que vamos tratar a partir de hoje nesta página em VEJA.com.

http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/index_310807.shtml

A seguir, cenas dos próximos capítulos…

Amanhã:

  • Minha opinião
  • O que poderia fazer pela alfabetização
  • Minha sugestão
  • Um projeto

2 Respostas para “Blogagem Coletiva: Textos provocativos de relevância para leitura”

  1. [...] Profa. Cristiana Passinato [...]


  2. [...] Cris Passinato [...]


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